A importância da boa comunicação para o relacionamento com o idoso

A importância da boa comunicação para o relacionamento com o idoso

 

Elisandra Villela Gasparetto Sé

 

Ao nascer, já somos mergulhados num mundo social, numa linguagem. Ganhamos um nome, um registro, uma língua que nos constitui, com a linguagem temos a noção de pertencimento, é ela que nos possibilita participar ativamente da sociedade. Através da linguagem aprendemos comportamentos, regras de convívio, expectativas, adequações de comportamentos, competências, opiniões, valores.

O homem controla o mundo com a linguagem, o fato de lidar com signos lingüísticos, o que nos diferencia de outras espécies, porque somos seres simbólicos, é com a linguagem que construímos a nossa identidade, o conhecimento a cerca de si mesmo e dos outros, ela permite não só estabelecer os contatos sociais, mas também selecionar aqueles que são significativos, garantir as experiências emocionais positivas. A possibilidade de se estabelecer relacionamentos produtivos, manter e negociar a identidade social e, em última instância, determinar rumos da própria vida está intimamente relacionada à habilidade de se comunicar.

Esta capacidade tem merecido crescente atenção de pesquisadores e estudiosos de qualidade de vida das pessoas idosas. De fato, competências individual e social estão intimamente relacionadas às competências cognitiva e comunicativa. Quando duas pessoas se encontram e começam a conversar, entra em jogo muito mais do que o simples conhecimento da língua que utilizam para se comunicar: uma série de informações sobre o interlocutor e seu mundo é acionada. Além disso, a percepção a respeito da situação em que se dá o encontro e as regras culturais que regem essa interação, interferem, determinando a distância a ser mantida, o tratamento a ser dispensado, o conteúdo e a forma conveniente de transmiti-lo. Ao se separarem, essas pessoas já não são as mesmas: novas informações foram obtidas e podem desencadear mudanças nas informações prévias: a respeito do mundo, a respeito de si próprias e de seu parceiro e da própria linguagem. Um dos fatores que dimensionam o encontro descrito é a idade, porém, independente de sua idade, o ser humano é um ser social, por isso a comunicação e o relacionamento são aspectos primordiais na vida das pessoas. Não existe ser humano sem comunicação. Alguns aspectos também determinam a maneira como se dá a interação: características de personalidade, classe social, etnia, valores, identificação, etc… Entre eles, a idade é um dos que mais interferem na maneira como os interlocutores se posicionam porque o comportamento social é regulado por normas, muitas delas atreladas aos diversos papéis sociais desempenhados ao longo da vida.

O processo de comunicação garante a ligação de mundos dos dois interlocutores na medida em que surgem as motivações e possibilidades de intercâmbio e informações para serem compartilhadas. A interação comunicativa pode ter como foco a troca de informações, de conhecimentos, compartilharem de experiências com a finalidade de se informar, a determinação de tomadas de posição em relação a determinado aspecto, uma opinião ou conselho que a pessoa transmite ao outro e o simples prazer interativo, tal como o bate papo informal numa atividade de lazer.

Com o processo de envelhecimento ocorrem mudanças significativas que refletem em vantagem e também desvantagem para o indivíduo idoso em relação às solicitações do mundo, o que vale também para as solicitações comunicativas. Mas que alterações a idade provoca na interação verbal? Quais as mudanças relativas ao envelhecimento que interferem na comunicação? O que, do ponto de vista da interação, faz com que admitamos estar interagindo com um indivíduo idoso?

É com essas mudanças, que caracterizam os idosos, do ponto de vista da linguagem e seus pré-requisitos. Do ponto de vista do fonoaudiólogo, sociólogos, psicólogos, antropólogos e estudiosos da etnografia da comunicação reconhecem-se no processo de envelhecimento mudanças nos diversos níveis de organização do ato comunicativo: no nível referente à estruturação conceitual do ato de fala pretendido, no de produção e no de compreensão da linguagem. Nas itenções comunicativas, no conteúdo semântico, nas narrativas pessoais. Portanto, dada a multiplicidade de fatores envolvidos nesse domínio, o olhar do estudioso da comunicação está voltado para os seguintes aspectos:

Heterogeneidade dos sinais de envelhecimento da comunicação

As mudanças manifestam-se de forma bastante heterogênea na população de indivíduos idosos. Alguns indivíduos apresentam maiores modificações na fonação outros na audição, enquanto outros evidenciam dificuldades no uso social da linguagem, na fluência, no vocabulário, na prosódia, marcas de várias naturezas. Por isso, as mudanças que ocorrem no processo de comunicação com o envelhecimento não são uniformes para todas as pessoas que envelhecem.

Existem algumas tendências características na comunicação de pessoas idosas que não foge à sensibilidade às sutilezas e variações das pessoas de outras faixas etárias.

É muito comum ouvir falar que o idoso é egocêntrico, só fala do passado, é confuso, tem dificuldade para entender o que lhe é dito, é esquecido, é surdo, repete inúmeras vezes o mesmo assunto. Se alguém lhe perguntasse o que entende pela expressão “conversa de velhos”, certamente você faria observações do tipo: é uma conversa comprida, sem fim, arrastada, pausada, cheia de histórias, lembranças do passado e por aí afora. Se por um lado isto conteria algumas verdades, por outro, revelaria uma atitude preconceituosa e estigmatizadora. Comprovação clara de que a linguagem é mais do que simples instrumento de comunicação; é também um componente decisivo na formação de preconceitos sociais.

 

Formas de interpretar a comunicação na velhice, levando em conta a multiplicidade de fatores

Duas visões distintas interpretam o envelhecimento da comunicação. Grosso modo, poderiam ser assim resumidas: a que admite os fatores orgânicos do envelhecimento como determinantes das relações que a sociedade estabelece com o interlocutor idoso e a que nega o envelhecimento, admitindo que a sociedade é acima de tudo preconceituosa em relação ao envelhecimento, em virtude da adoção de valores da cultura do jovem.

A primeira delas considera que as alterações provocadas no plano biológico, cognitivo e afetivo do indivíduo justificam a maneira como a sociedade os avalia. Para eles, o idoso que se põe a narrar um fato organizando os dados sem levar em conta o que o interlocutor já sabe sobre ele pode estar infringindo o princípio de cooperação da quantidade de informação que deve ser transmitida durante a interação. Este princípio da interação comunicativa preconiza que, quando dizemos algo, devemos levar em conta sua relevância para o interlocutor e para a sua situação. A desconsideração dessa indicação pode significar decréscimo de habilidade comunicativa.

Isso quando não somos flagrados trocando palavras de forma inesperada, ou que a pessoa é lenta demais ou rápida demais, ou que interpretamos de forma equivocada o que nos dizem, etc.. Todas as situações de interações estão longe de serem desviantes ou patológicas e fazem parte do funcionamento normal da linguagem e das condutas humanas. Comunicar-se é realmente uma aventura existencial. É importante saber que não existe um falante ideal e que a comunicação humana é mesmo cheia de percalços e surpresas. O que esperamos que a pessoa seja capaz de compreender o que diz o outro, ao mesmo tempo que se faz compreender pelo outro. Toda família possui uma forma de comunicar- se através de gestos, olhares, atitudes, expressões faciais que representam os mais variados sentimentos.

No caso da pessoa idosa, quanto maior o nível de dependência menor é a sua capacidade de dizer suas necessidades. Em determinados momentos os sentidos da pessoa idosa tornam-se ainda mais deficientes em conseqüência de aparelho auditivo funcionando mal, próteses dentárias mal ajustadas, óculos inadequados, entre outros. É evidente que nestes momentos a atenção deverá ser muito maior para melhor compreender seus desejos. Esta compreensão ajudará o cuidador a melhorar o seu relacionamento com o idoso.

A comunicação não é só verbal, ou seja, a comunicação é feita não somente através de palavras, sejam elas faladas ou escritas. Muitas vezes a comunicação não verbal pode ser mais significativa e confiável para conhecermos os desejos dos idosos como, por exemplo, o olhar e o toque. Por outro lado, existem algumas situações que podem prejudicar a comunicação e que devem ser evitadas ou para as quais devem-se buscar soluções para diminuir o seu efeito. É o que ocorre, por exemplo, quando muitas pessoas conversam ao mesmo tempo, em um ambiente com muito ruído de qualquer origem ou, ainda, o fato de ser fazer exigências quando as pessoas estão muito cansadas física ou mentalmente.

 

Algumas recomendações para uma boa comunicação

  • Para boa comunicação é importante atentar para as recomendações seguintes:
  • Utilizar sempre frases simples, claras e afirmativas;
  • Conhecer o vocabulário utilizado pelo idoso;
  • Evitar fazer discursos ou ficar falando sozinho durante muito tempo;
  • Falar sem gritar, de maneira pausada e calma, sem ser muito lento;
  • Ouvir o idoso com paciência, respeitando seu ritmo de resposta;
  • Falar de frente de forma que o idoso possa ler seus lábios;
  • Evitar comunicar-se em ambientes barulhentos;
  • Respeitar o idoso com suas características pessoais;
  • Valorizar a experiência do idoso;
  • Ser amável, paciente e atencioso;
  • Permitir que o idoso participe do diálogo e das decisões tomadas em casa;
  • Evitar expressões do tipo “deve”, “não deve”, porque reflete um relacionamento autoritário;
  • Evitar expressões “vô”, “ vó”, “vozinha” etc…., que depersonalizam e inferiorizam o idoso, procurando chamá-lo pelo nome;
  • Não infantilizar o idoso.
  • Ser criativo para fazer o necessário nas condições possíveis;
  • Ter clareza e sinceridade com atitudes essenciais no relacionamento com o idoso e sua família. 

     

    ELISANDRA VILLELA GASPARETTO SÉ – Fonoaudióloga, Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da Unicamp, Doutoranda em Linguística – área de Neurolinguística – pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Membro da equipe do Ambulatório de Psquiatria Geriátrica e do Ambulatório de Geriatria e Gerontologia do Hospital de Clínicas – FCM – Unicamp. Pesquisadora no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) – IEL – Unicamp. Autora do livro “Exercite sua Mente – Um guia prático de aprimoramento de memória, linguagem e raciocínio. Prestígio Editorial – Ediouro, 2005. E-mail: elisandra.villela@yahoo.com.br / Escreve semanalmente a Coluna Mente na Terceira Idade www2.uol.com.br/vyaestelar/mentenaterceiraidade.htm